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Seção : Mundo Ela - Livro - 27/01/2012 18:25
Escritos no Barraco
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CEDO ou tarde, as mazelas seriam contadas ao mundo! Um registro do Real, talvez? Aqueles papéis aglomeravam em detalhes as histórias de dias descarrilhados e mantidos a ferro quente. AQUELAS mulheres sonhadoras engoliram a voz do relato, lhes cortaram na garganta o poder da palavra. Foi-lhes surrupiado o direito de tentar Ser, elas apenas sobreviviam. Contudo, escreviam! O amontoado de arquivos passados e a produção diária, em milhares de linhas, exprimiam atribulações e o peso tal colossal das injustiças. - Por que insistem em esquecer a igualdade? Fingem viver felizes na desigualdade ofensiva e bruta. A injustiça vai bater à sua porta! ALGUM dia, esses escritos repousariam ávidos por leitura na estante da luta pela memória e justiça sociais? Os grossos volumes contavam extensos episódios manchados com vermelho-sangue, e continuavam a esperar o dia que lhes fosse entregue uma biblioteca. SEGUIAM os intentos nobres, encalçados em cada uma das benfeitoras daqueles relatos duros e indigestos. Metódicas, sempre ao cair do sol, costuravam palavras! Eram pedidos de reconhecimento, representação e constatação da desuniforme convivência entre a terra e o asfalto. Voavam papeis por todo o barraco! - A igualdade nunca existiu?! A igualdade não funciona sozinha e sem o todo unido! CONTUDO, o desejo de igualdade persistiria, cravaria gritos e lutas, berreiros e macumbas, choros e risos desesperados, ilusões de aparição de deuses salvadores, clamores e vozes vindas da escassez da grande mestra igualdade. As mulheres escreveriam... COMO enxurrada, os papéis transbordaram os barracos, passaram pelas vielas, correram entre a lama e os restos, desceram morro abaixo e inundaram as ruas e avenidas. A cidade acendeu o alerta de emergência, a verdade dos escritos desnudou a pobreza latente em cada transeunte de espírito vazio. PASSADA a tempestade, aquelas mulheres jamais interromperiam a escrita. Com punhos e mãos valentes, elas reproduziriam as histórias que outros buscavam enterrar. Os barracos voltariam a estar lotados de relatos, a cidade seria novamente inundada. E as mulheres não perderiam a esperança de que essas águas, algum dia, despertassem a alma daqueles cidadãos. Maíra Vasconcelos é jornalista e mora em Buenos Aires. Conta sobre o país dos hermanos em @jornaliskra e expõe sua necessidade de escrever no jornaliskra.blogspot.com |
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