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Divirta-se

Seção : Mundo Ela - Livro - 03/02/2012 17:23

Feliciana e a Repórter


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Reprodução da internet
Maíra Vasconcelos*

Desprovida da possibilidade de devorar seus verdadeiros desejos e sentir ofegar o prazer pela vida, Feliciana da pele negra esfrega as mãos em pratos e empresta seu Corpo a varrer o piso do Restaurante do Congresso.
 
O aborto cutuca como agulha seu esmiuçado físico fatigado e a culpa pesa comandada pelos mandamentos de Deus. O Divino Espírito Santo conforta seus pensamentos, è agora inerte, aprisionada e inconsciente do seu próprio poder. A cada amém uma dose de estagnação. Vícios para suportar a sobrevivência!
 
- Termino de passar o pano, pisoteiam meus esforços com pés fétidos e pestilentos.
 
Os clientes agitam os abraços! A tropa política acomoda-se às mesas com a finesse de hienas famintas. A rotina de almoços de trabalho, as estratégias para desviar notas aos fundos e largos bolsos de seus paletós. Quanto espaço, buracos sem fim?! Com aspecto gordo e suado, eles arrotam o luxo surrupiado das casas não-construídas, da falta nas escolas e hospitais.
 
Feliciana está espantada com a inutilidade do seu trabalho, afrontada pela brutal sujeira deixada pelos freqüentadores do Restaurante do Congresso. Talheres, mesas, piso, maçanetas, vasos e bidês eram lodosos, putrefaziam e vazavam os dejetos.
 
- O mau cheiro sufoca! Ninguém percebe?
 
Enquanto isso, o chef do Restaurante do Congresso concederia imagens e palavras à imprensa light: “O cozinheiro do Planalto”, titularia o competente jornalista da seção Cultura. A televisão esbanjaria registros de pratos elaborados em cores sedutoras, a alegria da culinária... Até o momento sinistro em que Feliciana arrancou o microfone das delicadas mãos da boneca-repórter e, feroz, entrou ao vivo no programa matinal da TV Entulho. 
 
- Vocês não sentem a fedentina?! As aparências são falsas, está tudo mofado, vermes caminham invisíveis entre os copos. As bocas que aqui comem são latrinas contaminantes!
 
Feliciana e a repórter-modelo saem já demitidas do Restaurante do Congresso, que seguiria em pleno funcionamento. A TV Entulho contrataria outro ego e uma nova pele negra, limparia, exaustiva, o espaço das falcatruas a gosto.
 
E de mãos dadas, as duas mulheres caminhariam em sentido ao corredor de saída. Contudo, antes, elas sacudiriam de cabeça para baixo cada um dos políticos ali presentes, até que despencassem de seus bolsos todas as notas desviadas. E com sacolas cheias, elas convocariam uma multidão para subir a rampa do Planalto e exigir o uso correto de cada centavo, um a um. 

Maíra Vasconcelos é jornalista e mora em Buenos Aires. Conta sobre o país dos hermanos em @jornaliskra e expõe sua necessidade de escrever no jornaliskra.blogspot.com